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PAINEL DE IDEIAS

O espelho do tempo

Olhando para o meu filho, cercado por figurinhas e expectativas, sou assaltado por uma mistura de sentimentos. Há uma nostalgia profunda, quase dolorida, ao me enxergar nele

por Sérgio Clementino
Publicado há 20 horasAtualizado há 20 horas
Sérgio Clementino (Sérgio Clementino)
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Existe uma idade mágica em que o futebol deixa de ser apenas um jogo de correria e se torna uma espécie de religião civil. É a idade em que os olhos guardam as cores do mundo com uma nitidez que o tempo nunca mais consegue apagar. Em 1982, eu tinha exatamente os mesmos doze anos que meu filho mais velho tem hoje. E aquela foi, sem qualquer direito a contestação do destino, a minha Copa inesquecível.

Nós vínhamos de um inverno longo. Aquela Seleção de Telê Santana desenhava a promessa de uma primavera. Zico, Sócrates, Falcão, Éder não eram apenas futebol. Havia a certeza absoluta de que o futebol arte mudaria a história. Cada partida era um desfile de genialidade que alimentava a nossa arrogância inocente de torcedor. Até que veio o Sarriá. Paolo Rossi transformou o concreto de Barcelona em um deserto de silêncio. Lembro-me perfeitamente do gosto amargo das lágrimas daquela eliminação. Chorei o fim do mundo aos doze anos, recolhendo as bandeirinhas que enfeitavam a rua, sem entender como o futebol podia ser tão belo e, ao mesmo tempo, tão cruel.

Hoje, assisto ao mesmo filme, repaginado pelo tempo. Meu filho vive agora o seu próprio rito de passagem. Ele respira a Copa do Mundo. Conhece as seleções, decora as escalações, negocia figurinhas como mercadores fazendo escambo de especiarias e ouro. É o mesmo brilho nos olhos, a mesma urgência em fazer parte da história.

Escrevo estas linhas antes da divulgação da lista dos convocados de Ancelotti. A pergunta que movimenta os debates é uma só: Neymar vai ou não vai? O país prende a respiração diante do mistério médico e técnico que envolve o craque. Aqui em casa, essa espera tem outro fator. Para o meu filho, que herdou o amor pelo Santos, a ida de Neymar tem o peso de uma utopia romântica. Ver um jogador do seu clube de coração vestir a amarelinha em uma Copa tornou-se um privilégio raríssimo para os torcedores brasileiros, acostumados a ver seus ídolos exilados nos gramados estrangeiros. Para você, caro leitor, essa pergunta já é passado. A lista do treinador já foi lida, os nomes já foram sacramentados e o destino já foi traçado. Mas, enquanto digito, o suspense ainda flutua no ar.

Olhando para o meu filho, cercado por figurinhas e expectativas, sou assaltado por uma mistura de sentimentos. Há uma nostalgia profunda, quase dolorida, ao me enxergar nele. Vejo o adolescente que fui, com os mesmos medos camuflados de coragem, a mesma paixão por onze camisas amarelas correndo num gramado distante. Mas, acima de tudo, sinto alegria. Uma alegria imensa em testemunhar o tamanho do futuro que ele tem pela frente. Sei que o futebol vai lhe ensinar grandes lições sobre perda, assim como aconteceu comigo em 1982. Sei que haverá desilusões na sua caminhada, gols contra e apitos finais antes da hora. Mas sei, também, que haverá gols de placa, viradas heroicas, realizações e alegrias que ele ainda não consegue imaginar. O álbum dele está apenas na primeira página. E o jogo da vida, felizmente, recém começou.

SÉRGIO CLEMENTINO

Promotor de Justiça em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras