É perigoso sangrar perto de tubarões
Quando uma mulher expõe sua dor e sua sobrevivência, ela encoraja outras mulheres a reagirem

Nos aconselharam a não sangrar perto de tubarões. A esconder a dor, silenciar abusos e suportar violências em nome da “boa convivência”. Nos ensinaram que denunciar era exagero, que reclamar era “mimimi”, que reagir nos tornava difíceis, histéricas, perigosas.
Mas perigoso, na verdade, é para aqueles que desejam manter o desequilíbrio entre homens e mulheres nos espaços de decisão, ver mulheres rompendo o silêncio. O que ameaça certas estruturas não é a nossa dor, é a nossa coragem de continuar ocupando os espaços onde decisões são tomadas.
Durante muito tempo tentaram nos afastar da política e da liderança. E agora, chegando próximo ao período eleitoral, precisamos lembrar de algo essencial: somos maioria entre o eleitorado brasileiro. Isso, por si só, já representa uma força imensa, desde que nós, mulheres, assumamos a responsabilidade coletiva de eleger mais mulheres comprometidas com transformação social.
Nos ensinaram a não sangrar perto de tubarões porque, na natureza, mostrar feridas pode atrair predadores. E isso é verdade. Mas os tempos mudaram. Hoje compreendemos que mostrar nossas cicatrizes também pode salvar vidas. Quando uma mulher expõe sua dor, sua luta e sua sobrevivência, ela encoraja outras mulheres a reagirem. Ela mostra que é possível sobreviver aos ataques, enfrentar a violência política e, ainda assim, existir plenamente.
Porque a agressividade daqueles que tentam suprimir mulheres não nasce da nossa fraqueza. Nasce do medo que eles têm de nos ver ocupando espaços historicamente negados.
Já fomos impedidas de estudar. Já fomos impedidas de votar, de escolher. Já fomos silenciadas dentro de casa e apagadas da história. Mas hoje carregamos experiências e conhecimentos suficientes para impulsionar mudanças profundas e sustentáveis.
Não queremos superioridade. Queremos equilíbrio. Queremos respeito.
Não queremos permissão. Queremos direitos garantidos.
Portanto, chegou a hora de transformarmos nossa presença em força política concreta. Que possamos nos unir para ampliar a participação feminina na política brasileira. Porque quando uma mulher levanta, ela abre caminho. Mas quando milhares se levantam juntas, elas — nós — deixamos de apenas resistir ao sistema e passamos a transformar a consciência que sustenta as estruturas, abrindo caminho para uma sociedade verdadeiramente mais humana, equilibrada e livre.
Vanessa Cornélio
Artista, conselheira CEAPcD e CMPC, delegada V FNPdC. Membra do coletivo Mulheres na Política.